INICIATIVAS

Opinião

Odemira: passado, presente e futuro

Luís Mesquita Dias Presidente da Direção da AHSA

Quem conheceu Odemira há umas dezenas de anos, este que é o maior concelho nacional em área e o menor em densidade populacional, sabe bem o deserto que literal e alegoricamente ele constituía. Deserto de vegetação, de gente, de perspetivas. Sem uma intervenção de fôlego, e a criação de um enorme reservatório de água, o território nunca teria saído da letargia em que durante décadas, diria séculos, se arrastou. Estávamos em pleno Estado Novo e assim nasceu a Barragem de Santa Clara, uma obra de engenharia ao mesmo tempo simples e notável que, tirando partido da morfologia do terreno, pareceu adivinhar a importância e o custo que a energia viria a representar no futuro. Com ela nasceu o Perímetro de Rega do Mira.

Com ele, seguiram-se anos de adaptação a esta nova situação com altos e baixos nas escolhas do modelo de desenvolvimento. Um caminho errático que deixou atrás de si um rasto de abandono e uma imagem de marca negativa que durante muito tempo perdurou. Os bons empresários e investidores, no entanto, prevaleceram, e este pequeno canto do país converteu-se numa das mais produtivas bolsas agro-económicas de Portugal. E com a posterior criação do parque natural, provou-se a compatibilização de economia e ambiente, a qual trouxe um afluxo de gente nacional e estrangeira que estancou a sangria populacional e fez deste concelho o que mais cresceu em Portugal nos últimos censos.

No entanto, todo este sistema de rega se foi, com o tempo, desgastando. Ora pela erosão do tempo, ora por maus-tratos ou incúria, ora por falta de fundos e reabilitação, ora pela combinação de todos estes fatores. A verdade é que as perdas de água foram crescendo ao longo das condutas. A ausência de reservatórios de retenção em fim de linha levou durante anos milhões de metros cúbicos de água para um mar que dela não necessitava. A transformação da rega por gravidade em rega pressurizada (com mais de 40% de poupança) foi tardando numa área onde há muito devia ter sido instalada e onde ainda nem sequer está prevista.

Neste momento atribulado, em que uma Comissão Administrativa nomeada pelo Estado substituiu uma Direção com quem entrou em colisão, não importa apontar culpas. Essencial é resolver o problema de uma vez. Temos um perímetro de 12.000 hectares, onde pouco mais de 5.000 são cultivados com mais 40 culturas diferentes, que desmentem o nominativo de monocultura que se atribui à zona e ao setor. São 1.600 hectares de culturas cobertas, em 60.000 de Parque, ou seja 2,5% da área protegida.

E quanto ao futuro?

O futuro passa, por um lado, pela dotação da região de todos os serviços que lhe foram sendo subtraídos ou negados e que o crescimento populacional necessita. É evidente a urgência que o País tem de adequar a facilidade das entradas às necessidades de mão de obra para que esse equilíbrio não gere tensões. De uma forma geral, no entanto, Odemira é nesse aspeto um excelente exemplo de convívio multiracial e multicultural. Saibamos preservá-lo e resolver o problema da falta de habitação que está na origem da maioria dos casos de abuso e de vida indigna que sem dúvida ainda existem.

A segunda grande vertente do sucesso do território prende-se com a água. E o futuro, neste domínio, vai muito para além da barragem. Nesse sentido, a AHSA pôs em andamento um estudo de viabilidade e procura de investidores para conseguir que nos próximos quatro anos a primeira água dessalinizada comece a ser distribuída acabando assim com o risco de desertificação que neste momento nos assola. Assim o Município e o Governo nos ajudem a ultrapassar os obstáculos burocráticos em que o nosso País é pródigo. Só juntos, e a remar na mesma direção, teremos hipóteses de vencer.